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segunda-feira, 1 de abril de 2013

CANSEI DE AGRADAR








A DESPEDIDA



A despedida

            Era uma ensolarada tarde de uma quinta-feira de verão. Eu estava decidida a dar fim ao nosso relacionamento de dez anos. Dar os últimos passos juntos. Em virtude de sua saúde debilitada, resolvi acompanhá-lo à casa de saúde, próxima de nossa casa. Caminhamos em silêncio. Ele cabisbaixo, triste. Quanto a mim faltavam palavras. Nem parecia que tínhamos um romance desses que a gente não deixa o outro sozinho nunca. Todo dia ele me informava as últimas notícias, cotação da bolsa de valores, fofocas do mundo das celebridades (que eu adoro) e até se atrevia a me ajudar em revisão de textos. Tínhamos assunto pra noite toda. Um adivinhava o pensamento do outro. Era uma identificação difícil de se ver, comparada a um ovo batido em liquidificador – impossível separar a gema da clara.
            O especialista, previamente agendado, e muito atencioso, antecipou o diagnóstico.
            - É caso de internação. Ele precisa ficar aqui para exames específicos.
            E, chamando-me num canto do consultório, confidenciou, numa voz quase inaudível:
            - Pela minha experiência, você pode se preparar para a separação definitiva. Sei que separação dói e até influencia no dia-a-dia, mas, mais dia menos dia, isso vai acontecer.
                Naquele momento, tomei pé de que no íntimo eu não queria uma ruptura e senti o mundo desabar. Fiz um flashback (ato ou efeito de trazer à memória pensamento, imagem, sensação do passado; lembrança, recordação)  e trouxe à lembrança dez anos de estreito apego, aposentadoria planejada etc e tal. Mas o jeito era conviver com a realidade.
            Eu voltei para casa sozinha, sentindo deixar uma parte de mim, um cabedal de cumplicidade que se guarda no coração e nunca se apaga. Fiz um insight (compreensão ou solução de um problema pela súbita captação mental dos elementos e relações adequados à solução; estalo)  em forma de radiografia, ou melhor, de um ecodopler, uma ressonância magnética, e isso me comprovou o laudo. Eu andava sem olhar pra trás, com medo de debulhar-me em lágrimas. O especialista prometeu me contatar para informar o resultado dos exames. Talvez, com muito esforço, poderia haver recuperação.
            Dois dias se passaram, mas para mim parecia um século. No sábado, a notícia de que a recuperação era possível, apesar de seu quase estado de coma, trouxe-me esperança e otimismo.
            Feliz com a reação do paciente, o especialista acompanhou-o até em casa. A mudança foi tanta que à primeira vista não o reconheci. Foi preciso olhá-lo detalhadamente, procurando identificar marcas que só nós dois conhecemos. Seu traje era de gala. Parecia vestido para uma festa importante. Sua fala estava macia, a memória mais aguçada e tudo indicava uma reaproximação.
            Dr. Otávio, da Só Micro, apressou-se em explicar tudo, tim-tim por tim-tim:
            - Seu PC (personal computer) está atualizado e é de última geração. Fiz um upgrade (atualização dos componentes do hardware ou do software) completo: troquei o gabinete, a placa-mãe, o HD, coloquei processador (com cooler), aumentei a memória e instalei placa de fax-modem, além de trocar o teclado por um Office, com um designer moderno, e o mouse (por um óptico). Instalei Windows XP e, como brinde, você ganhou um pen drive.

Iracema Dantas
iracemada@gmail.com
12.02.2007